Tellura
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Capítulos 1–20 (5/6)

Capítulo 5 · 2906 palavras · ~15 min de leitura

Assim que viu o pai, foi agarrada pelo guarda e levada de volta à sala de espera. Desta vez, o guarda era diferente do que a segurava pela corda; foi extremamente amável e consolou-a. Sentou-a num banco da sala e disse-lhe com veemência: «Não chores. Daqui a nada o teu pai sai». Mas Yeong-chae, que não era nada ingénua, sabia que aquilo não passava de palavras de consolo. E desatou a chorar copiosamente. O guarda, não conseguindo acalmá-la, acabou por dizer: «Não chores, vai para casa», e foi-se embora. Nessa altura, um homem sentado ao lado, de cabelo rapado e vestindo um durumagi de lã, perguntou-lhe com grande simpatia: «Porque choras? Alguém veio visitar-te?». Yeong-chae contou-lhe que o pai e os dois irmãos mais velhos estavam naquela prisão, que na verdade não tinham culpa nenhuma, e que ela viera sozinha até tão longe para ver o pai. Pensava que, ao contar isto, talvez alguém se compadecesse dela e lhe permitisse visitar o pai com mais frequência, e até lhe desse de comer durante algum tempo. Ao ouvir aquilo, o homem consolou-a com palavras muito sinceras e afetuosas: «És mesmo de lamentar. Fica em minha casa até ao próximo dia de visita. Só permitem visitas uma vez por mês. Fica na minha casa durante um mês, depois volta a ver o teu pai e vai para casa». Ao ouvir que teria de esperar mais um mês para tornar a ver o pai, Yeong-chae sentiu o coração apertado, mas ficou imensamente grata pela gentileza daquele homem. Além disso, pensava que, vindo a Pyongyang apenas para encontrar o pai, passaria o resto da vida com ele. Mas, vendo agora a realidade, não só não podia ficar com ele, como só o podia ver uma vez por mês. Sem dinheiro e sem conhecidos em Pyongyang, já lhe preocupava como iria comer e dormir a partir daquela noite. Além disso, Agosto já ia adiantado, e uma brisa fria soprava ao amanhecer e ao anoitecer; a sua roupa de algodão fino já lhe trazia arrepios. E dormir sem cobertor fazia-a encolher-se toda, incapaz de pregar olho. Na noite anterior, passara a noite em claro, gelada, no chão de entrada de uma casa nos arredores de Chilseongmun, sem conseguir dormir sequer um instante. Desde manhã que a barriga lhe doía e, antes de ver o pai, já tinha ido à casa de banho três vezes. As agruras e a fadiga de uma longa viagem, juntamente com a tristeza e o desânimo de ter encontrado o pai naquele estado, deixaram-na sem forças, sem vontade de dar um passo. Nesse momento, alguém se oferecera para a acolher com tanta bondade que, mesmo na sua tristeza, Yeong-chae sentiu algum alívio. Mas, lembrando-se de que fora enganada por um homem de cabelo rapado numa estalagem de Sukcheon, receou que aquele fosse mais um desses, e observou-lhe atentamente as palavras e os gestos. No entanto, este homem era diferente do que vira em Sukcheon: vestia bem, tinha um rosto sério e, por mais que olhasse, não lhe via ar de malvado. E pensou: se ele tentar enganar-me, mordo-lhe o nariz e fujo. O que ela queria era comer uma refeição quente e dormir num quarto aquecido, coberta com um edredão. Se fosse para a casa daquele homem, decerto lhe dariam boa comida e uma cama. Alguém tão bem vestido devia ter uma casa confortável. E assim, Yeong-chae seguiu o homem, como ele lhe dissera. Pelo caminho, ele continuou a tratá-la com gentileza, pegando-lhe na mão e perguntando-lhe várias coisas. Yeong-chae respondia sem energia. A casa do homem ficava dentro de Namdaemun. Chegaram quando já mal podia andar de cansaço. A casa não era muito grande, mas parecia limpa à primeira vista. Na porta estava uma placa com o nome «Kim Un-ryong». Yeong-chae pensou que a caligrafia era bonita. Ao entrar, viu que o pátio e os quartos estavam extremamente arrumados, e lá dentro estavam uma jovem mulher bonita e uma rapariga. Yeong-chae pensou consigo: aquela senhora é a esposa dele, e aquela rapariga, a irmã. Porque não terá mãe? Devia ter mãe, mas talvez tenha morrido velha, como a nossa avó. Tudo correspondia ao que imaginara, e Yeong-chae sentiu-se muito mais tranquila. Ainda por cima, a presença da rapariga que parecia ser irmã e a ausência de outros homens pareciam-lhe ainda melhores. Todos naquela casa gostaram de Yeong-chae. Nessa noite, como esperara, comeu uma saborosa refeição com sopa de carne, coisa que não fazia há muito tempo. Depois de comer, o homem saiu para algum lado, e Yeong-chae ficou com a senhora e a rapariga, com a luz acesa, a conversar. A rapariga, que tomava Yeong-chae por rapaz, não falava muito, mas a senhora perguntou-lhe várias coisas sobre a sua vida. Yeong-chae, ao ver que a senhora a tratava com afeto, lhe passava a mão pelos cabelos e lhe pegava nas mãos, ficou tão comovida que, a chorar, contou a sua história. Quando contou em pormenor que fugira de casa dos avós maternos disfarçada de rapaz para encontrar o pai e os irmãos, e as dificuldades que passara pelo caminho, a rapariga arregalou os olhos e a senhora, abraçando-a e acariciando-lhe as costas, chorou também. Depois de ouvir tudo, a senhora enxugou as lágrimas com a barra da saia e disse: «Bem me parecia que o teu rosto era de rapariga!». Abriu um armário e tirou um fato novo que tinha feito. Yeong-chae recusou duas vezes, mas acabou por vesti-lo. Então, as três ficaram ainda mais chegadas, rindo e conversando. Até a rapariga, que até ali estivera calada, de repente sorriu, pegou na mão de Yeong-chae e começou a falar afetuosamente. Yeong-chae, por momentos, esqueceu-se do pai e dos irmãos e sentiu-se contente, como se tivesse regressado a uma casa que perdera. Já tarde, o homem voltou e, ao ouvir a história contada pela senhora, ficou muito surpreendido. E todos se riram. Assim passaram alguns dias, enquanto ela esperava que o mês passasse depressa para voltar a ver o pai e contar àqueles grandes benfeitores a sua história.

Esperar fazia com que um mês parecesse uma eternidade. Yeong-chae começou a pensar cada vez mais no pai. Lembrava-se do seu rosto terrivelmente magro e abatido, dos olhos encovados, da roupa tingida de amarelo, do guarda barbudo e dos homens que transportavam baldes de excrementos com correntes de ferro à cintura. Cada vez que via as suas roupas bonitas e quentes, cada vez que via a comida saborosa que comia de manhã e à noite, a imagem lastimável do pai lhe vinha à mente. Yeong-chae foi perdendo a alegria, deixou de comer bem e, muitas vezes, sentava-se sozinha a chorar. A senhora e a rapariga continuavam a consolá-la com afeto, mas esse consolo durava apenas alguns dias. Quando estava sozinha, sem a senhora nem a rapariga, as lágrimas brotavam naturalmente. Yeong-chae perguntava-se por que não poderia salvar o pai e os dois irmãos mais velhos. Será que não havia maneira de os tirar da prisão? Se não pudesse tirá-los de todo, ao menos não poderia dar-lhes roupas mais limpas e comida mais saborosa? Ouvira dizer que na prisão comiam arroz misturado com metade de feijão. Não seria por falta de comida que o pai estava tão abatido? Lia nos livros antigos que algumas raparigas se vendiam para salvar os pais em apuros. Pensava: se eu pudesse fazer o mesmo... Um dia, expôs esta ideia àquele homem. Este elogiou-lhe a intenção, mas disse, olhando-a: «Se houvesse dinheiro, poderíamos levar-lhe comida, e talvez até o fizessem sair da prisão...». Yeong-chae lembrou-se das histórias antigas. Quando ouvira falar da rapariga que se vendera para salvar o pai, ela, que ainda não tinha dez anos, chorara e pensara em fazer o mesmo. Ao ouvir aquele homem dizer que «com dinheiro se pode levar comida e talvez até fazer sair da prisão», pensou em fazê-lo também. Ele acrescentou, rindo-se e olhando para ela: «Mas é preciso ter dinheiro». Yeong-chae pensou: «Pois é, este senhor também me está a encorajar a fazer o que aquela rapariga fez antigamente. Se eu seguir o exemplo dela e me vender, conseguirei o dinheiro e o pai e os irmãos sairão da prisão. (Quando saírem, hão-de elogiar-me.) As pessoas hão-de chamar-me filha dedicada. Hão-de escrever a minha história nos livros, como fizeram com aquela rapariga, e muitas outras raparigas hão-de lê-la e chorar e elogiar-me como eu fiz. Mas se eu não me vender para salvar os meus pais e irmãos, este senhor e toda a gente hão-de gozar comigo, chamando-me filha ingrata. Além disso, durante o tempo em que estive nesta casa, soube que a senhora também fora gisaeng, e a rapariga está agora a estudar para ser gisaeng. As gisaengs que vêm cá todos os dias são todas bonitas, bem vestidas e de bom coração...». Pensou que as gisaengs eram todas boas raparigas. E, vendo que todas elas escreviam bem e sabiam ler, pensou que as gisaengs eram raparigas instruídas. Então, tomou uma decisão. Disse àquele homem: «Eu já decidi. Quero ser gisaeng também. Eu também já aprendi um pouco a ler. Com esse dinheiro, quero salvar o meu pai». E Yeong-chae sentiu uma alegria desconhecida e uma espécie de orgulho. O homem acariciou-lhe as costas e disse: «És realmente especial. Uma filha dedicada. Então, tratarei disso conforme a tua vontade».

Foi assim que Yeong-chae se tornou gisaeng. Não foi porque quisesse, mas na esperança de poder salvar o seu velho pai. Na verdade, não só o dinheiro da venda do seu corpo não serviu para salvar o pai e os irmãos, como aquele homem que prometera tratar de tudo fugiu com os duzentos wons que recebeu pelo corpo de Yeong-chae, abandonando mulher e casa. Além disso, quando o pai de Yeong-chae soube que ela se vendera para ser gisaeng a fim de o salvar, cometeu suicídio por asfixia. Mas Yeong-chae não se tornara gisaeng porque quisesse; fê-lo unicamente para salvar o seu velho pai e os seus irmãos.

No entanto, quem é que sabia disso? O Céu e os deuses sabiam, mas que pessoa de carne e osso o poderia saber? Mesmo que eu diga isto agora, será que Hyeongsik acreditará? Dirá: «Tu, de conduta impura, tornaste-te uma prostituta e, agora que estás a ficar velha e enjoada dessa vida, vens enganar-me.» E não se rirá de mim, ao contrário? Poucos meses depois de me ter tornado gisaeng, fui visitar o pai à prisão. Quando ele soube que eu era gisaeng, enfureceu-se e gritou: «Sua desgraçada! Sua desgraçada que manchas a nossa ilustre família! Que moça se deixou enganar por quem para já ter corrompido o corpo?» Pensou que eu me tornara gisaeng por ser de conduta impura e, por fim, se matou. Se até os meus pais pensaram assim, quanto mais Hyeongsik acreditaria nas minhas palavras? Esta manhã, quando decidi procurar Hyeongsik, tencionava contar-lhe tudo o que me acontecera. Mas, ao ter estes pensamentos, toda aquela determinação se desfez, e só restam no meu peito tristeza e ressentimento. Ah! Não haverá neste mundo quem queira ouvir a minha verdade?

Pensando assim, Yeong-chae suspirou fundo, enxugou as lágrimas e olhou para Hyeongsik e para a velha. Hyeongsik olhava-a com olhos afetuosos, à espera da continuação da história, e a velha acariciava-lhe as costas, assoando o nariz.

«Então, o que aconteceu depois de escapar das mãos daquele malvado?», perguntou Hyeongsik, apressando a história. Yeong-chae, depois de um momento (olhando para Hyeongsik), enxugou as lágrimas e levantou-se, dizendo:

«Contar-lhe-ei noutra ocasião.»

«Porque faz isso?», disse Hyeongsik, mas ela não atendeu à sua objeção, nem respondeu à pergunta «Onde vai?», e levantou-se para ir embora com a criada. Hyeongsik e a velha entreolharam-se.

«O que se passa?», disseram.

Ao ver Yeong-chae interromper-se e levantar-se subitamente para sair, Hyeongsik ficou por momentos atónito. Depois, saiu a correr para fora, sem sequer pôr o chapéu. Mas, no meio de tantos transeuntes, não conseguiu descobrir onde ela se tinha metido. Hyeongsik lamentou não a ter seguido imediatamente quando ela saiu. Andou de um lado para o outro pela rua durante um bocado, mas acabou por voltar a casa desanimado. A velha ainda estava sentada a chorar.

Hyeongsik ficou sozinho, apoiado na secretária, pensando no caso de Yeong-chae. Porque teria ela interrompido a história a meio e ido embora tão apressadamente? Porque chorara ela tão amargamente enquanto falava? Por mais que pensasse, não conseguia perceber a razão. Talvez eu tivesse feito ou dito alguma coisa que a desagradasse? Não. Quando ouvia as suas palavras, mostrei-lhe a maior compaixão e sinceridade. Quando ela me olhava fixamente, há bocado, e eu vi aqueles olhos límpidos cheios de lágrimas, senti por ela um amor inexprimível. Ela deve ter visto essa expressão no meu rosto. Então, porque interrompeu a conversa e se foi embora tão depressa? Só pode ser que tenha alguma razão profunda que não pode confessar-me. Mas que razão será essa? Quando veio procurar-me, devia tencionar contar-me tudo, fosse o que fosse. Porque parou a meio e se foi embora? Já sei. A velha dona da casa disse ainda bocado: «Embora pareça uma estudante, acho que é uma gisaeng.» Deve ser verdade. Veio sozinha para Pyongyang e, enganada por algum malvado ou malvada, acabou por se tornar gisaeng. Depois de ter sido gisaeng em Seul, terá ouvido dizer que eu estava aqui e veio procurar-me. Se é assim, qual seria a sua intenção ao procurar-me? Terá vindo por saudades de uma amiga de infância, só para me ver? E, ao encontrar-me, lembrou-se dos velhos tempos, do pai e dos irmãos, e começou a chorar na minha frente e a lamentar a sua sorte. Depois, com receio de que eu ficasse desagradado se soubesse que ela se tornara gisaeng, terá parado de falar e ido embora? Então, ela é realmente uma gisaeng. A filha do bondoso Park Seonsaeng tornou-se gisaeng? A filha do dedicado Park Seonsaeng, que deu o corpo e a alma pelo mundo, caiu nas tentações do mundo e se tornou um brinquedo para homens devassos? Talvez tivesse marcado encontro com algum libertino para esta noite, e me veio visitar um momento antes da hora combinada. Ou talvez tenha passado por minha casa a caminho de encontrar esse libertino. Assim faz sentido. Há bocado, quando a segui até à rua, vi um homem alto e uma mulher a descerem de braço dado em frente ao Posto Policial de Gyodong. Não seria ela? Nesse caso, ela deve estar agora sentada nalgum restaurante, de mãos dadas com algum homem devasso, abraçando-se e beijando-se, bebendo do mesmo copo, entregando-se a prazeres obscenos com canções e palavras indecentes. Aqueles olhos que há bocado derramavam lágrimas devem agora deitar olhares sedutores aos homens, e aquela boca que contava a sua triste história deve agora dizer coisas imundas que não se podem repetir. Talvez esteja agora nos braços de algum homem, deleitando-se com prazeres imundos. Ao pensar nisto, Hyeongsik sentiu uma vaga onda de desagrado no peito. Todo o ar lastimável que ela mostrara diante de mim não passava de uma falsa aparência. Ela deve ter-se rido de nós por dentro, ao ver-nos chorar com a sua história. Ah, mulher repugnante! pensou. Ah, Yeong-chae tornou-se uma mulher perdida. Tornou-se uma prostituta corrupta e imunda. Esqueceu os pais e os irmãos, caiu na tentação e tornou-se um corpo imundo como excremento de cão. A casa de Park Seonsaeng está arruinada, pensou. Hyeongsik levantou a cabeça e olhou vagamente pelo quarto. Pegou no leque que estava em cima da secretária e abanou o rosto quente. Depois, saiu para o alpendre e sentou-se. Ouvia-se o som de uma banda de música de um cinematógrafo e as campainhas dos riquexós que passavam na rua de Gyodong. Incapaz de recompor os pensamentos dispersos, Hyeongsik andou um pouco pelo pátio estreito, depois voltou para dentro e deitou-se na cama ainda vestido. Fechou os olhos devagar. Mas diante dos seus olhos via nitidamente a figura de Yeong-chae a chorar, sentada. As histórias que ela contara passavam-lhe à volta, como imagens de uma lanterna mágica ou de um cinematógrafo. Via-a quando ele a abraçara ao partir da casa de Park Seonsaeng, em Anju, dizendo: «Nunca mais te verei.» Via-a a fugir sozinha de casa dos avós, numa noite de lua, com o cão. Via-a agarrada por um malvado numa estalagem de Sukcheon. Via-a sentada à beira da estrada deserta de madrugada, de luto, a abraçar o cão morto. Mas, depois, o filme parava de repente, ficava escuro por um momento, e via-se Yeong-chae com um janggu na mão, sentada com devassos libertinos, cantando canções lascivas com ar libidinoso. E via-a também deitada na cama, partilhando a almofada com algum homem.

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