Tellura
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II

Capítulo 58 · 2485 palavras · ~13 min de leitura

II.

Na mesma sala, ao anoitecer, estava sentado à mesa o velho Zygfryd de Loewe, que, após o comendador Danveld, assumira entretanto a administração de Szczytno, e ao seu lado o irmão Rotgier, o cavaleiro de Bergow, antigo prisioneiro de Jurand, e dois nobres jovens, noviços, que em breve haveriam de vestir os mantos brancos. O vento de Inverno uivava do lado de fora das janelas, fazia vibrar as armações de chumbo, oscilava a chama dos archotes que ardiam nas argolas de ferro, e de quando em quando expelia da chaminé nuvens de fumo para a sala. Entre os irmãos, embora se tivessem reunido para um conselho, reinava o silêncio, pois aguardavam a palavra de Zygfryd; este, porém, com os cotovelos apoiados na mesa e as mãos entrelaçadas sobre a cabeça grisalha inclinada, permanecia soturno, com o rosto na sombra e pensamentos lúgubres na alma.

— Sobre o que havemos de deliberar? — perguntou o irmão Rotgier.

Zygfryd ergueu a cabeça, olhou para quem falava e, despertando do devaneio, disse:

— Sobre a desgraça, sobre o que dirão o Mestre e o Capítulo, e para que dos nossos actos não resulte dano para a Ordem.

Depois calou-se de novo, mas passado um momento olhou em redor e moveu as narinas:

— Ainda aqui se sente o sangue.

— Não, comendador — respondeu Rotgier — mandei lavar o chão e defumar com enxofre. Aqui cheira a enxofre.

E Zygfryd fitou com um olhar estranho os presentes e disse:

— Tenha Deus piedade da alma do irmão Danveld e do irmão Gotfryd!

Eles entenderam que invocava a misericórdia divina sobre aquelas almas porque, após a menção do enxofre, lhe viera à ideia o inferno; por isso um arrepio lhes percorreu os ossos, e responderam todos a uma voz:

— Ámen! Ámen! Ámen!

Durante um instante ouviu-se de novo o uivo do vento e o vibrar das armações das janelas.

— Onde está o corpo do comendador e do irmão Gotfryd? — perguntou o velho.

— Na capela; os padres rezam as ladainhas sobre eles.

— Já em caixões?

— Em caixões, mas o comendador tem a cabeça coberta, porque o crânio e o rosto estão desfeitos.

— Onde estão os outros cadáveres e os feridos?

— Os cadáveres na neve, para enrijecerem até que se façam os caixões, e os feridos já estão tratados no hospital.

Zygfryd entrelaçou novamente as mãos sobre a cabeça.

— E foi um único homem que fez isto!... Deus, guardai a Ordem sob a vossa protecção, quando chegar a grande guerra contra esta raça de lobos.

A isso Rotgier ergueu o olhar, como se recordasse algo, e disse:

— Ouvi, perto de Vilna, o preboste da Samogícia dizer ao seu irmão, o Mestre: 'Se não fizeres a grande guerra e não os exterminares de tal modo que nem o nome reste, então ai de nós e do nosso povo.'

— Queira Deus tal guerra e o encontro com eles! — disse um dos nobres noviços.

Zygfryd fitou-o prolongadamente, como se tivesse vontade de dizer: 'Podias hoje ter-te encontrado com um deles' — mas vendo a figura franzina e jovem do noviço, e talvez lembrando que ele próprio, embora famoso pela bravura, não quisera ir para uma perda certa, desistiu da censura e perguntou:

— Qual de vós viu Jurand?

— Eu — respondeu de Bergow.

— Vive?

— Vive, está deitado na mesma rede em que o enredámos. Quando acordou, os servos quiseram-no matar, mas o capelão não o permitiu.

— Não o podemos matar. É um homem notável entre os seus e haveria um clamor terrível — replicou Zygfryd.

— Então como havemos de falar e o que fazer? — perguntou Rotgier.

Zygfryd reflectiu e por fim disse assim:

— Vós, nobre conde de Bergow, ide a Malbork, ao Mestre. Estivestes cativo de Jurand e sois hóspede da Ordem; portanto, como hóspede que não precisa necessariamente falar a favor dos monges, mais facilmente acreditarão em vós. Dizei, pois, o que vistes: que Danveld, tendo resgatado de uns salteadores da fronteira uma certa rapariga e julgando que era a filha de Jurand, o avisou disso, e ele veio a Szczytno e... o que se passou depois — vós mesmo sabeis...

— Perdoai-me, piedoso comendador — disse de Bergow. — Sofri um cativeiro duro em Spychów e, como vosso hóspede, de boa vontade testemunharia sempre a vosso favor, mas para sossego da minha consciência, dizei-me: será que não esteve a verdadeira Jurandówna em Szczytno, e não terá sido a traição de Danveld que levou ao desvario o terrível pai dela?

Zygfryd de Loewe hesitou por um momento antes de responder; na sua natureza havia um ódio profundo à raça polaca, havia a crueldade, na qual até superava Danveld, e a rapacidade quando se tratava da Ordem, e a soberba, e a cobiça, mas não havia nela a mentira. A maior amargura e desgosto da sua vida era que, nos últimos tempos, os assuntos da Ordem, por indisciplina, devassidão e libertinagem, se tinham configurado de tal modo que a mentira se tornara um dos meios mais eficazes e indispensáveis da vida da Ordem. Por isso a pergunta de de Bergow tocou nele o lado mais doloroso da sua alma e foi apenas após um longo momento de silêncio que disse:

— Danveld está diante de Deus e Deus o julga; e vós, conde, se vos perguntarem acerca de suposições, dizei o que quiserdes; se, porém, acerca do que os vossos olhos viram, dizei que, antes de enredarmos na rede o homem enfurecido, vistes nove cadáveres, além dos feridos, neste mesmo chão, e entre eles os corpos de Danveld, do irmão Gotfryd, de von Bracht e de Hugo, e de dois nobres jovens... Deus lhes dê o eterno descanso. Ámen!

— Ámen! Ámen! — repetiram novamente os noviços.

— E dizei também — acrescentou Zygfryd — que, embora Danveld quisesse subjugar o inimigo da Ordem, ninguém aqui, contudo, desembainhou a espada primeiro contra Jurand.

— Direi apenas o que os meus olhos viram — respondeu de Bergow.

— Antes da meia-noite, porém, estai na capela, onde também viremos rezar pelas almas dos mortos — respondeu Zygfryd.

E estendeu-lhe a mão, ao mesmo tempo como sinal de agradecimento e despedida, pois desejava ficar apenas com o irmão Rotgier para continuar o conselho, a quem amava e em quem confiava muito. Assim, após a saída de Bergow, despachou também os dois noviços, sob o pretexto de que vigiassem o fabrico dos caixões para os simples servos mortos por Jurand, e, quando a porta se fechou atrás deles, voltou-se rapidamente para Rotgier e disse:

— Ouve o que te digo: só há um remédio: que nenhuma alma viva saiba jamais que a verdadeira Jurandówna esteve aqui.

— Não será difícil — respondeu Rotgier — porque ninguém sabia que ela está aqui, a não ser Danveld, Gotfryd, nós dois e aquela serva da Ordem que a vigia. Os homens que a trouxeram da Estação Florestal, Danveld mandou-os embriagar e enforcar. Houve alguns na guarnição que suspeitaram de algo, mas aquela desmiolada baralhou-lhes a cabeça, e eles próprios já não sabem se houve engano da nossa parte, ou se algum feiticeiro transformou realmente a Jurandówna.

— Isso é bem — disse Zygfryd.

— Eu, por meu turno, pensava, nobre comendador, se, já que Danveld morreu, não devíamos lançar toda a culpa sobre ele...

— E confessar perante o mundo inteiro que, durante a paz e as negociações com o Duque da Masóvia, raptámos da sua corte a educanda da princesa e a sua aia favorita? Não, por Deus! Isso não pode ser! Na corte viram-nos juntamente com Danveld, e o grande Hospitalário, seu parente, sabe que empreendemos sempre tudo juntos... Se acusarmos Danveld, ele quererá vingar a sua memória...

— Deliberemos sobre isso — disse Rotgier.

— Deliberemos e encontremos um bom conselho, porque senão ai de nós! Se devolvêssemos a Jurandówna, ela própria diria que não a recebemos de salteadores, mas que os homens que a capturaram a levaram directamente a Szczytno.

— Assim é.

— E Deus é testemunha de que não me preocupo apenas com a responsabilidade. O duque queixar-se-á ao rei da Polónia, e os seus emissários não deixarão de gritar em todas as cortes contra as nossas violências, a nossa traição, o nosso crime. Só Deus sabe quanto dano pode advir daqui para a Ordem. O próprio Mestre, se soubesse a verdade, deveria mandar esconder a rapariga.

— E mesmo que ela desapareça, não nos acusarão na mesma? — perguntou Rotgier.

— Não! O irmão Danveld era homem astuto. Lembras-te de que impôs a condição a Jurand de que não só viesse pessoalmente a Szczytno, mas que antes anunciasse e escrevesse ao duque que vinha resgatar a filha dos salteadores e que sabia que ela não estava connosco?

— Verdade, mas como justificaremos então o que aconteceu em Szczytno?

— Diremos que, sabendo que Jurand procurava a filha, e tendo retirado aos salteadores uma rapariga que não sabia dizer quem era, avisámos Jurand, pensando que poderia ser a sua filha; e ele, ao chegar, ao ver a rapariga, enlouqueceu e, possuído pelo demónio, derramou tanto sangue inocente que nem uma batalha custa mais.

— Na verdade — respondeu Rotgier — fala por vós a razão e a experiência da idade. As más acções de Danveld, mesmo que lançássemos a culpa apenas sobre ele, recairiam sempre sobre a Ordem, portanto sobre todos nós, o Capítulo e o próprio Mestre; assim, porém, mostrar-se-á a nossa inocência, e tudo recairá sobre Jurand, sobre a maldade polaca e as suas ligações com as forças infernais.

— E que nos julgue então quem quiser: o Papa ou o Imperador Romano!

— Sim!

Seguiu-se um momento de silêncio, depois o irmão Rotgier perguntou:

— Então, o que faremos com Jurandówna?

— Deliberemos.

— Entregai-ma a mim.

Mas Zygfryd olhou para ele e respondeu:

— Não! Ouve, jovem irmão! Quando se trata da Ordem, não sejais indulgentes nem com homem nem com mulher, mas não sejais indulgentes convosco. A mão de Deus alcançou Danveld, porque não só quis vingar os agravos da Ordem, mas também satisfazer os seus próprios apetites.

— Julgais-me mal! — disse Rotgier.

— Não sejais indulgente convosco — interrompeu-o Zygfryd — porque se tornarão efeminados os vossos corpos e as vossas almas, e o joelho daquela raça dura há-de um dia oprimir o vosso peito de tal modo que não mais vos levantareis.

E pela terceira vez apoiou a cabeça soturna na mão, mas visivelmente falava apenas com a própria consciência e só pensava em si, pois após um momento disse:

— Também sobre mim pesa muito sangue humano, muita dor, muitas lágrimas... E eu, quando se tratava da Ordem e via que só com a força não conseguia, não hesitei em procurar outros caminhos, mas quando comparecer diante do Senhor, dir-lhe-ei: 'Isto fiz pela Ordem, e para mim — eis o que escolhi!'

E ao dizer isto, abriu com as mãos sobre o peito a veste escura de burel, sob a qual se mostrou o cilício. Depois apertou as têmporas com as mãos e ergueu a cabeça e os olhos para o alto e exclamou:

— Renunciai aos prazeres e à devassidão, endurecei os vossos corpos e os vossos corações, porque eis que vejo a brancura das penas de águia no ar e as garras da águia, vermelhas do sangue teutónico...

As palavras seguintes foram-lhe interrompidas por uma lufada de vento tão violenta que uma janela no alto, sobre a galeria, se abriu com estrondo, e toda a sala se encheu do uivo e do assobio da ventania, bem como de flocos de neve.

— Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo! É uma noite má — disse o velho Cavaleiro Teutónico.

— Noite de forças impuras — respondeu Rotgier.

— E junto ao corpo de Danveld estão os padres?

— Estão.

— Partiu sem absolvição... Deus, tende misericórdia dele...

E calaram-se ambos, depois Rotgier chamou os servos, aos quais mandou fechar a janela e reavivar os archotes, e, quando eles saíram, perguntou novamente:

— Que fareis com Jurandówna? Levá-la-eis daqui para Insburk?

— Levá-la-ei para Insburk e farei dela o que o bem da Ordem exigir.

— E eu, que hei-de fazer?

— Tens coragem na alma?

— Que fiz eu de tal para que duvideis disso?

— Não duvido, porque te conheço, e pela tua bravura amo-te como a um filho. Portanto, vai à corte do Duque da Masóvia e conta-lhe tudo o que aqui aconteceu, tal como combinámos entre nós.

— Posso arriscar-me a uma perda certa?

— Se a tua perda redundar em glória da Cruz e da Ordem, deves fazê-lo. Mas não! Não te espera a perda. Eles não fazem mal a um hóspede; a menos que alguém te queira desafiar, como fez o jovem cavaleiro que nos desafiou a todos... Ele, ou outro, mas isso não é de temer...

— Queira Deus! Podem, no entanto, prender-me e lançar-me nas masmorras.

— Não o farão. Lembra-te de que existe a carta de Jurand para o duque, e tu irás, além disso, queixar-te de Jurand. Contarás fielmente o que ele fez em Szczytno, e terão de acreditar em ti... Vê: fomos nós os primeiros a avisá-lo de que havia uma rapariga, fomos nós os primeiros a convidá-lo para que viesse vê-la, e ele veio, enlouqueceu, matou o comendador, dizimou-nos os homens. Assim falarás, e eles que te poderão responder? A morte de Danveld espalhar-se-á por toda a Masóvia. Perante isso, desistirão das queixas. A Jurandówna, evidentemente, procurá-la-ão, mas como o próprio Jurand escreveu que ela não está connosco, a suspeita não recairá sobre nós. É preciso cobrir com audácia e calar-lhes as bocas, porque também pensarão que, se fôssemos culpados, nenhum de nós ousaria vir.

— Verdade. Após o funeral de Danveld, partirei imediatamente a caminho.

— Deus te abençoe, filhinho! Quando fizermos tudo como deve ser, então não só não te deterão, mas terão de renegar Jurand, para que não possamos dizer: 'Vede como eles tratam connosco!'

— E assim é preciso queixar-se em todas as cortes.

— O grande Hospitalário cuidará disso, tanto pelo bem da Ordem como por ser parente de Danveld.

— Mas e se aquele diabo de Spychów sobreviver e recuperar a liberdade...

E Zygfryd começou a olhar soturnamente diante de si, depois respondeu lenta e claramente:

— Ainda que recupere a liberdade, jamais pronunciará uma única palavra de queixa contra a Ordem.

Depois começou ainda a ensinar Rotgier sobre o que havia de dizer e o que havia de exigir na corte da Masóvia.

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